Filosofia Contemporânea

Martin Heidegger (1889 - 1976)

Vida, época, filosofia e obras

Introdução

     Filósofo alemão que escreveu sua filosofia em linguagem altamente cifrada e, apesar de que o dizem dificilmente compreensível, é romanticamente cultuado por um grande número de admiradores de fragmentos poéticos do seu pensamento sobre o Ser. No entanto, ele próprio desistiu de suas ideias, preferindo não publicar o segundo volume de sua obra principal, o "O Ser e o Tempo". Fervoroso adepto do nazismo antes da derrota da Alemanha na segunda guerra mundial, para muitos foi um pensador original, um crítico da sociedade tecnológica do século XX. De sua obra ficou a designação de "Existencialismo" para a corrente de pensamento anti-determinista fundada por Kierkegaard e à qual se filiou. Foi um escritor prolífico: calcula-se que reunir tudo que escreveu daria uns 70 volumes

     Primeiros anos e juventude. Martin Heidegger nasceu a 26 de setembro de 1889 em Messkirch, na Schwarzwald (Floresta Negra), Alemanha, e faleceu em 26 de maio de 1976, na mesma Messkirch, então parte da Alemanha Ocidental. Seu pai foi um sacristão católico, incumbido das vestes e dos objectos sagrados, de tocar os sinos e também de cavar as sepulturas no interior do templo. Heidegger mostrou uma preocupação religiosa precoce e teve seu interesse despertado para a filosofia ainda ao tempo de seus estudos básicos, através da leitura do filósofo católico do final do século XIX Franz Brentano. Impressionou-o a psicologia " descritiva ", como é apresentada no Von der mannigfachen Bedeutung des Seienden nach Aristoteles ("Dos vários significados do Ser de acordo com Aristóteles"-1862) de Brentano. De seu estudo inicial de Brentano procede também seu entusiasmo pelos gregos, especialmente os pré-Socráticos. Após terminar os estudos básicos, Heidegger entrou para a ordem dos Jesuítas. Como noviço, estudou a Escolástica (filosofia cristã medieval) e a teologia tomista, na universidade de Freiburg.

     Por toda sua vida madura Heidegger esteve obcecado pela possibilidade que há um sentido básico do verbo "ser" que jaz atrás de sua variedade de usos. Suas concepções quanto ao que existe, é uma Ontologia (o estudo do que é, do que existe: a questão do Ser) dependente dos filósofos antes de Sócrates, da filosofia de Platão e de Aristóteles, e dos Gnósticos. Foi influenciado ainda por diversos filósofos do século 19 e do início do século 20, principalmente pelo pensador católico dinamarquês Søren Kierkegaard e pelos filósofos alemães Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Wilhelm Dilthey (1833-1911, e pelo seu mestre e fundador da fenomenologia (o estudo do modo como as coisas se manifestam), Edmond Husserl (1859-1938).

     Quando ainda em seus 20, Heidegger estudou em Freiburg com o filósofo Heinrich Rickert (1863-1936), mais tarde fundador da escola de Baden do pensamento neo-kantiano, e com Husserl, que era então já famoso. A fenomenologia de Husserl, e especialmente sua luta contra a inclusão da psicologia nos estudos essenciais do homem - que ele sentiu que devia, em vez, ser conduzido no nível filosófico -- determinou o substrato da dissertação doutoral do jovem Heidegger (1914). Consequentemente, o que Heidegger mais tarde disse e escreveu sobre a ansiedade, pensamento, perdão, curiosidade, angústia, cuidado, ou medo com certeza não se referia a psicologia; e o que ele disse sobre o homem, não pretendeu que fosse sociologia, antropologia, ou ciência política. Suas proposições objectivavam descobrir maneiras de ser. Heidegger começou a leccionar na universidade de Freiburg durante o semestre académico do inverno de 1915 e ganhou sua habilitação com um estudo do filósofo franciscano escocês falecido na Alemanha John Duns Scotus (1266-1308).

     Maturidade. Moço ainda e agora um colega de Husserl, era de esperar que Heidegger levasse o movimento fenomenológico mais longe dentro do espírito de seu antigo mestre. Entretanto, de grande vocação religiosa, ele preferiu seu próprio caminho, e em 1927 surpreendeu o mundo filosófico alemão com Sein und Zeit ("O ser e o tempo", 1962) -- um trabalho que, embora quase impossível de se ler, foi imediatamente considerado ser da maior importância. O livro foi aclamado como um trabalho profundo e importante não somente em países de língua germânica mas também nos países latinos, onde a fenomenologia era já bem conhecida mas a língua alemã nem tanto.

     Ele Influenciou fortemente Jean-Paul Sartre, na França e outros existencialistas, e, apesar dos protestos de fé do próprio Heidegger, ele foi considerado, por força deste livro, como um líder do existencialismo ateu. Entretanto, entre os intelectuais ingleses, mais avessos aos modismos, sua recepção foi um tanto fria, e sua influência foi insignificante por várias décadas.

     Heideger começou a leccionar na universidade de Freiburg durante o semestre académico do inverno de 1915 e ganhou sua habilitação com um estudo do filósofo franciscano escocês falecido na Alemanha John Duns Scotus (1266-1308).

     Em "O ser e o tempo", o propósito declarado de Heidegger é trazer à luz o que significa ser para o homem, ou "como é ser". Pode se dizer que o aspecto messiânico da sua filosofia está em levar cada homem a fazer essa pergunta com o máximo envolvimento. Na crise actual da humanidade, já seria bastante que o homem se detivesse nesta reflexão; e ele eventualmente chegará ou não a qualquer resposta definitiva, torna-se de importância secundária. Sem esta reflexão, o homem segue uma maneira não autêntica de ser, em uma alienação que o desenvolvimento tecnológico agrava cada vez mais.

     Na ocasião da publicação de "O ser e o tempo", Heidegger era professor "ordinarius" em Marburg onde leccionou por diversos anos (desde 1923). Renunciou esse lugar e, em 1928, e retornou a Freiburg, desta vez como o sucessor de Husserl. Seu discurso de posse na cátedra foi Was ist Metaphysik?("Que é Metafísica?"-1929) no qual elabora um de seus temas favoritos, das Nichts; isto é, o nada.

     Adesão ao Nazismo. No início dos anos 30 ocorreu uma reviravolta no pensamento de Heidegger, um giro afastando-o do problema do ser e do tempo. Isto foi negado por Heidegger ele mesmo, que insistiu que ele toda a vida, desde sua juventude, fazendo aquela mesma pergunta fundamental, mas em seus últimos anos tornou-se claramente mais relutante em voltar ao assunto e oferecer qualquer resposta ao problema básico do ser e do tempo.

     Aproximadamente na época dessa reviravolta ocorreu também sua adesão ao nazismo, curta devido certamente apenas ao desenlace desfavorável da guerra, mas nem por isso uma participação menos eloquente. Sua participação na política cultural do terceiro reich teve início mesmo antes que Adolf Hitler assumisse o poder em novembro 1933. Com o crescimento do partido e sua penetração nos meios intelectuais, as universidades alemãs foram expostas a pesadas pressões. Esperava-se que apoiassem a "revolução nacional" e eliminassem os intelectuais judeus e suas doutrinas (tais como a da relatividade). O reitor em Freiburg, um cientista anti-nazista, renunciou como protesto, e a equipe de professores elegeu unanimemente o engajado Heidegger como seu sucessor.

     Como Heidegger aprendeu com Husserl, é o método phenomenological e não o método científico que revela os modos de ser do homem. Assim, ao seguir este método, Heidegger cai em conflito com a dicotomia da relação sujeito-objecto, que implicou tradicionalmente que homem, como cognescente, é algo (some-thing) dentro de um ambiente que ele confronta. Esta relação, entretanto, deve ser transposta. O Saber mais profundo, ao contrário, é matéria do phainesthai (grego: "mostrar-se" ou "estar na luz"), a palavra da qual phenomenologia, como um método, é derivada. Algo está exactamente "lá" na luz. Assim, a distinção entre o sujeito e o objecto não é imediata mas vem somente mais tarde com a conceitualização, como nas ciências.

     O discurso de posse de Heidegger na reitoria ("A auto-afirmação da universidade alemã") foi uma ampla afirmação de Nazismo. Para garantir, ele dividiu as tarefas dos estudantes em serviço do trabalho, serviço militar, e serviço científico. Porém, para seus admiradores, ansiosos por livra-lo tanto quanto possível de compromissos com a ideologia nazista, Heidegger estava apenas copiando a política educacional autoritária de Platão, e afinal, alegam, o discurso sequer terminou com um "Heil, Hitler!", mas com uma citação da república de Platão: "todas as grandes coisas se expõem ao perigo".

     No entanto, em seu discurso Heidegger não mostra adesão última à filosofia nazista. No texto ele incita à pergunta "o que é ser?", coloca sua advertência contra perder-se alguém em "coisas" que o alienam do ser autêntico (Seiendes), e opõe-se à especialização científica. Porém, entrou para o partido nazista e apesar de renunciar à reitoria em 1934, em várias ocasiões pronunciou sólidos discursos pró-Hitler. "o Führer ele mesmo," disse Heidegger, "e somente ele é a realidade alemã, presente e futura, e sua lei". Não é de se esperar que o defensor da autenticidade não fosse ele mesmo autêntico, inclusive enquanto nazista.

     A história do National Socialismo depois de 1934, e até o fim da II Guerra Mundial, pode ser dividida em duas partes com aproximadamente igual duração de seis anos. É importante, para compreender a adesão de muitas pessoas inteligentes e sensatas ao nazismo, reconhecer que o primeiro período, foi de promessas que pareciam de realização justa e eminente, e, aparentemente, apenas o segundo foi marcado por inquestionáveis crimes cometidos pelo partido até a desilusão e a derrota final. Os anos entre 1934 e 1939, foram gastos pelo Partido em estabelecer o inteiro controle em todos os níveis da vida na Alemanha. Durante aqueles anos Hitler e seu movimento ganharam o apoio e mesmo o entusiasmo da maioria da população alemã. Muitos alemães haviam crescido conscientes dos conflitos políticos, da instabilidade económica e política, e da desordem geral que caracterizou os últimos anos da República de Weimar. Eles saudaram com crescente esperança o forte, decisivo, e aparentemente competente governo implantado pelos nazistas. Após 1934 a interminável horda de ociosos na Alemanha rapidamente diminui na medida que os desempregados eram colocados a trabalhar em projectos de obras públicas e nas fábricas de armamento que se multiplicavam rapidamente. Os alemães foram arrastados para esse movimento de massas, ordeiro, poderosamente objectivo, destinado a restaurar a dignidade, o orgulho e a grandeza do seu país, e devolver-lhe o primeiro lugar no palco europeu. A recuperação económica dos efeitos da Grande Depressão e o forte nacionalismo alemão eram, assim, os factores-chave no apelo do Nacional Socialismo para a população alemã. Finalmente, os êxitos constantes de Hitler no campo diplomático e suas conquistas externas a partir de 1934 até os primeiros anos da II Guerra garantiu o apoio incondicional da maioria dos alemães, inclusive, muitos que haviam inicialmente se oposto a ele.

     Últimos anos. Em novembro 1944 Heidegger parou de leccionar. A invasão da Alemanha derrotada pelas potências aliadas tornou difícil a situação dos nazistas mais destacados. Em 1945 ele foi proibido de leccionar oficialmente e suas actividades nazistas foram investigadas. Não foi incriminado em nenhum dos crimes praticados pelos partidários de Hitler e por isso não perdeu seus direitos a uma aposentadoria. Deu regularmente influentes conferências nos anos 1951-58, e continuou um intelectual importante dentro do movimento fenomenológico internacional até seu falecimento em 1976.

FILOSOFIA

     O conhecimento. Tradicionalmente, o conhecimento implicava a dicotomia da relação sujeito-objecto, em que o homem, como cognoscente, é algo dentro de um ambiente que ele confronta. Para Heidegger, esta relação deve ser transposta. O Saber mais profundo, ao contrário, é matéria do phainesthai (grego: "mostrar-se" ou "estar na luz"), a palavra da qual fenomenologia, como um método, é derivada. Algo está exactamente "lá" na luz. Assim, neste conhecimento profundo, a distinção entre o sujeito e o objecto não é imediata mas vem somente depois com a conceitualização, como nas ciências. Então o homem existe segundo certos fenómenos, que são os modos como ele está lá, na luz (Dasein, o "o ser" em alemão é, etimologicamente, a palavra da, que significa "lá" com a palavra sein, que significa "estar")

     Terminologia. Heidegger evita termos das ciências sociais ou da psicologia tanto quanto possível, em favor de uma terminologia ontológica. Viu-se então na necessidade de criar uma terminologia nova, palavras novas para exprimir seu pensamento. Foi criticado por desenvolver seu próprio alemão, seu próprio grego, e seu próprio tipo de etimologias. Inventa, por exemplo, aproximadamente 100 palavras complexas novas que terminam com "- sendo." Ao ler seus trabalhos se deve, assim, traduzir muitos de seus termos chaves de volta em palavras gregas a fim de entender suas interpretações e etimologias. Isto faz um risco que, ao "interpretar" a filosofia de Heidegger, alguém esteja na verdade, criando, pelo menos em parte, "uma filosofia de Heidegger"

     Os existenciais. Heidegger divide a existência em três "estruturas existenciais": afectividade, fala e entendimento. São três fenómenos existenciais que caracterizam como as coisas do passado, do presente e do futuro se manifestem para o homem e a unidade desses três fenómenos constitui a estrutura temporal que faz a existência inteligível, compreensível..

1) a afectividade: as coisas do passado chegam ao homem como valores, afectando-lhe os sentimentos, que podem ser públicos, compartilhados, e transmissíveis.

2) a fala: no presente, as coisas se traduzem em palavras da linguagem na articulação dos seus significados

3) o entendimento: as coisas do futuro, onde o projecto que define o homem encontrará a morte, são as coisas não garantidas, que lhe são devolvidas para gerar nele o sentimento de que não está em casa neste mundo, mesmo estando entre as coisas que lhe são mais familiares.

     Portanto, no homem, o ser está relacionado ao tempo e está dado, - existe -, nestes três fenómenos, nestes três "existenciais". Porém...

     A alienação. O homem está fora das coisas, diz Heidegger em "O ser e o tempo", nunca sendo completamente absorvido por elas, mas não obstante não sendo nada, à parte delas. O homem vive, até o fim, em um mundo no qual ele foi jogado. Sendo algo jogado em meio às coisas, estando-lá (Da-sein), constitui algo à parte (Verfall) mas está no ponto de ser submergido nas coisas. É continuamente um projecto (ent-wurf); mas ocasionalmente, ou mesmo normalmente, pode ser submergido nas coisas a tal ponto que é absorvido nelas temporariamente (Aufgehen in). O homem encobre aqueles condicionantes existenciais, - aquilo que ele de facto é -, entregando-se a uma rotina de superficialidades "públicas" na vida quotidiana. Não é então ninguém em particular; e uma estrutura que Heidegger chama das Man ("o eles ") é revelada, como uma tendência da alienação de si mesmo que leva o homem à tendência de se conhecer apenas através da comparação que faz de si mesmo com os outros indivíduos seus pares. A característica do das Man é a conversa inócua (Gerede) e curiosidade (Neugier). No Gerede, o que fala e o ouvinte não estão em nenhuma relação pessoal genuína ou em qualquer relação intima com aquilo sobre o que falam, o que, portanto, conduz a superficialidade. A curiosidade é uma forma de distracção, uma necessidade para o "novo," uma necessidade para algo "diferente," sem interesse ou capacidade de maravilhar.

     A angústia. Mas uma coisa pode acontecer que desperta o homem dessa alienação, a angústia (Angst). Ela resulta da falta de base da existência humana. A "existência" é uma suspensão temporária entre o nascimento e a morte O projecto de vida do homem tem origem no seu passado (em suas experiências) e continuam para o futuro, o qual o homem não pode controlar e onde esse projecto será sempre incompleto, limitado pela morte que não pode evitar.

     A angústia funciona para revelar o ser autêntico, e a liberdade (Frei-sein) como uma potencialidade. Ela enseja o homem a escolher a si mesmo e governar a si mesmo.

     Na angústia, a relevância do tempo, da finitude da existência humana, é experimentada então como uma liberdade para encontrar-se com sua própria morte (das Freisein für den Tod), um "estar preparado para" e um contínuo "estar relacionado com" sua própria morte (Sein zum Tode). Na angústia, todas as coisas, todas as entidades (Seiendes) em que o homem estava mergulhado se afastam, afundando em um "nada e em nenhum lugar," e o homem então em meio às coisas paira isolado, e em nenhuma parte se acha em casa (Un-heimlichkeit, Un-zu-hause). Enfrenta o vazio, a "nenhum-coisa-idade" (das Nichts); e toda a "rotinidade" desaparece -- e isto é bom, uma vez que então encontra a potencialidade de ser de modo autêntico.

     Assim, a angustia "sóbria" (nüchtern) e a confrontação implicada com morte são para Heidegger primeiramente ferramentas, têm importância metodológica: certos fundamentos são revelados. A ansiedade abre o homem para o ser.

     Entre as estruturas reveladas estão as potencialidades do homem para ser alegremente activo (".. conhecer a alegria [die wissende Heiterkeit] é uma porta para o eterno"). Isto não quer dizer que o Ser participa do lado negro do desespero, da angústia; o Ser é associado com a " luz " e com " a alegria " (das Heitere). Pensar o ser é chegar ao verdadeiro lar.

     Por isso, dos três existenciais, Heidegger privilegia o futuro, porque é esta projecção para o advir e o golpe da devolução no embate com a morte que lá está que o leva a pensar e à autoconscientização.  

    
“Ser
” e “ente” são o centro, o núcleo da “obscuridade iluminada” a que conduz cada caminho, qualquer que seja o seu ponto de partida no interior da ampla esfera da obra de Heidegger. O ser do ente é o objectivo fundamental da ontologia, para a qual adverte o autor, sobretudo a partir do seu – O que é pensar? Para Heidegger : “todo o ente é no ser.”

     Na Carta Sobre o Humanismo, Heidegger diz-nos que estamos longe de pensar, com suficiente radicalidade, a essência do agir. O autor busca o que há de mais originário no pensamento. Para o autor, a essência do agir é consumar, o mesmo é dizer-desdobrar alguma coisa até á plenitude da sua essência. “O pensar consuma a relação do ser com a essência do homem”[1].

     A linguagem é a casa do ser e nesta habitação mora o homem. A linguagem originária é aquela que provém do ser. Para o autor os verdadeiros guardiões desta linguagem originária são os pensadores e os poetas, pois apenas eles são capazes de fazer com que a manifestação do ser, alcance a plenitude e possa proferir a verdade. “O pensar, deixa-se requisitar pelo ser para dizer a verdade do ser”[2]. A sua história nunca é completa, ela está sempre na iminência de vir a ser. O ser humano é uma constante possibilidade, é um tornar-se que nunca pode ser definitivamente. O autor faz uma crítica á interpretação técnica do pensar que deriva, segundo ele da tentativa de igualar o pensamento á técnica o que revela um afastamento da questão do sentido do ser. “O pensar é o pensar do ser”[3]. O homem, deve escutar o apelo do ser, deve deixar-se requisitar pelo ser, o homem deve deixar que o ser seja. Será que neste apelo não reside uma tentativa de reconduzir o homem novamente para a sua essência? O mesmo é dizer que o homem se torne humano (humanus). Na base de tal pensar permanece o humanismo – que o homem se torne humano e não des-humano, inumano, isto é situado fora da sua essência. Para Heidegger, a humanidade do homem assenta na sua essência. O autor afirma que o humanismo se diferencia  de caso para caso, segundo a concepção da “liberdade” e da “natureza” do homem. No entanto por mais que se distingam várias espécies de humanismos, todas elas coincidem no seguinte: que a humanitas do homo humanus  é determinada a partir do ponto de vista de uma interpretação fixa da natureza, da história, do mundo, isto é, do ponto de vista do ente na sua totalidade.

     Qualquer humanismo tem como seu suporte uma metafísica, ou ele mesmo se postula como o fundamento de tal metafísica. Toda a determinação da essência do homem que pressupõe a interpretação do ente, sem a questão da verdade do ser é Metafísica. A questão da verdade do ser esquecida na Metafísica, só pode vir á luz levantando-se no próprio seio da Metafísica, a questão: o que é a Metafísica? Todos os tipos de humanismo que, desde então até ao presente, tem surgido, pressupõe como evidente a “essência” mais universal do homem. O homem é visto como animal racional. Esta determinação essencial do homem mesmo não sendo falsa, ela é condicionada pela metafísica, cuja origem essencial se tornaram dignos de serem questionados. A Metafísica não levanta a questão da verdade do ser-ele-mesmo. Ela não questiona o modo como a essência do homem pertence á verdade do ser. A pergunta que se coloca é se a essência do homem como tal, se funda realmente na dimensão da animalitas. Será que quando distinguimos o homem e enquanto o distinguimos, como ser vivo entre outros, da planta, do animal e de Deus, estamos no caminho certo para a essência do homem? É possível, mas é necessário, porém, ter presente que o homem permanece assim relegado definitivamente para o âmbito essencial da animalitas. A Metafísica  pensa o homem a partir da animalitas, ela não pensa na direcção da sua humanitas.

     “O estar postado na clareira do ser é o que Heidegger chama a ex-sistência do homem. Este modo de ser só é próprio do homem”[4]. A ex-sistência para ele é o modo de ser do homem. É a maneira de ser que dá conta do seu ser. Eu não sou uma coisa eu não posso existir sem relação, Eu sou-com . É nesta relação que o homem se contrói e se compreende. A ex-sistência somente se pode dizer da essência do homem, isto é, somente a partir do modo humano de «ser.»

     Em ser e tempo (pág. 42) encontra-se a seguinte frase: «A essência do ser-aí reside em a sua existência»”, esta frase significa que “o homem desdobra-se assim no seu ser que ele é o «aí», isto é, a clareira do ser. Este «ser» do aí, e somente ele, possui o traço fundamental da ex-sistência, isto é, significa o traço fundamental da in-sistência ex-stática na verdade do ser”. Ex-sistência significa in-sistência, estar ali, é o decidir estar na verdade. A essência ex-stática do homem reside na sua ex-sistência, que permanece distinta da existência pensada metafísicamente. Porque as plantas e os animais estão mergulhados cada qual no seio do seu ambiente próprios, mas nunca estão inseridos livremente na clareira do ser, e somente esta clareira é «mundo», por isso, falta-lhes a linguagem. A linguagem é o advento iluminador-velador do próprio ser.

     Ex-sistência, significa, sob o ponto de vista do seu conteúdo, estar exposto na verdade do ser. Existência significa, actualitas, realidade efectiva, em oposição com a pura possibilidade da ideia. A frase: «O homem ex-siste», não responde á pergunta se o homem é real ou não, mas responde á questão da «essência» do homem. O homem é, enquanto ex-siste. A «essência» determina-se a partir do elemento ex-stático do ser aí. Ao dizer-se que “A «substancia» do homem é a ex-sistência”[5], quer se dizer que o modo como o homem se presenta na sua própria essência ao ser, é a ex-stática in-sistência na verdade do homem. As interpretações humanisticas do homem como animal rational, como «pessoa», como ser espiritual-anímico-corporal, não são falsas . Pelo contrário, o único pensamento que se quer impor é que as mais altas determinações humanisticas da essência do homem ainda não experimentaram a dignidade do homem Neste sentido pensa-se contra o humanismo em Ser Tempo porque ele ainda não instaurou a humanitas do homem convenientemente. 

     Mas o ser - o que é o ser? O ser é. “Na luz do ser está situado cada ponto de partida do sente e cada retorno a ele”[6]. A clareira em si é o ser, porém a verdade do ser como a clareira em si mesma permanece oculta para a Metafísica. “Como se comporta, então, o ser em relação á ex-sistência? O Ser é a relação , na medida em que retém junto a si, a ex-sistência na sua essência existêncial, isto é, ex-stática e a recolhe junto a si, como o lugar da verdade do ser, no seio do ente”[7].

     O homem, não é apenas um ser vivo, pois, paralelamente a outras faculdades, o homem possui a linguagem. A linguagem é a casa do ser; nela morando o homem ex-siste enquanto pertence á verdade do ser. Assim, o que importa na determinação da humanidade do homem enquanto ex-sistência é que o homem não é o essencial, mas o ser enquanto dimensão do elemento ex-stático da ex-sistência. A ex-sistencia do homem é enquanto ex-sistência historial. «Somente enquanto é ser-aí, dá-se ser», ou seja: somente enquanto se manifesta a clareira do ser este se transmite ao homem. “Assim o ser é fundamentalmente mais completo que todo o ente, porque é a própria clareira”[8]. Somente a partir do «sentido», isto é a partir da verdade do ser, se pode compreender como o ser é. O ser manifesta-se no homem no projecto ex-stático. Mas este projecto não instaura o ser, é essencialmente um projecto jogado (entregue, lançado). “Aquele que joga no projectar não é o homem, mas o próprio ser que destina o homem para a ex-sistência do ser aí como sua essência”[9].

     A palavra pátria é pensada numa acepção originária, não no sentido patriótico, ou nacionalista mas de acordo com a história do ser. A essência da pátria é invocada com a intenção de pensar a apatridade do homem moderno a partir da história do ser. Desta forma, a partir do ser, dá-se a superação da apatridade “na qual erram perdidos, não apenas os homens mas também a essência do homem”[10]. A apatridade significa o abandono ontológico do ente, ou seja, a apatridade representa o esquecimento do ser. “expulso da verdade do ser o homem gira, por toda a parte, em torno de si mesmo, como animal racional”[11].

     A essência do homem reside na sua ex-sistência. É esta ex-sistência que fundamentalmente importa, no sentido que ela recebe a sua importância do próprio ser na medida em que o ser apropria o homem enquanto ele é o ex-sistênte, para a vigilância da verdade do ser inserindo na própria verdade do ser. «humanismo» significa então que a essencia do homem é essencial para a verdade do ser. Pensar a verdade do ser significa pensar a humanitas do homo humanos. “O «ser-no-mundo» nomeia a essencia da ex-sistência, com vista à dimensao iluminada desde a qual desdobra o seu ser, o «ex» da ex-sistência.”[12].(p66) O estar no mundo define o ser humano. O Eu, é um estar aí presente ao mundo.      


[1] HEIDEGGER, Martin. – “Carta sobre o Humanismo”. Trad. rev. de Pinharanda Gomes. Prefacio de António Brandão. Lisboa: Guimarães Editores, 1998, p. 31

[2] Ibidem. p. 32

[3] Ibidem. p. 34

[4] Cf. Ibidem. p. 44.

[5] Ibidem. p. 52.

[6] Ibidem. p. 53.

[7] Ibidem. p. 54.

[8] Ibidem. p. 60.

[9] Ibidem. p. 60.

[10] Ibidem. p. 62.

[11] Ibidem. p. 65.

[12] Ibidem. p. 66.


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